Lutar contra a destruição ambiental é lutar por justiça social

Cândido Grzybowski -  Sociólogo, diretor do Ibase

A cada dia que passa, a Conferência da ONU Rio+20 ganha maior visibilidade na grande mídia e, sobretudo, entre redes e organizações pelo mundo afora. Agora já é possível, pela Internet, mapear análises e posicionamentos de diferentes atores que estarão presentes, de algum modo, no evento oficial ou na Cúpula dos Povos. Sou dos que dão as costas à Conferência da ONU por sentir que, numa conjuntura de crise capitalista profunda, cujo epicentro são os países desenvolvidos, além de muitos envolvidos em eleições, os governos não passarão daquelas declarações sem efeito prático. No fundo, não acredito que os governos queiram mudar alguma coisa, a começar pelo nosso governo, cuja prioridade é crescimento como condição necessária para avançar na justiça social entre nós, brasileiros e brasileiras.

Alinho-me com os que pensam que não há forma de enfrentar a questão da justiça social sem, ao mesmo tempo, enfrentar a destruição ambiental. Ao longo da série de pequenas análises no contexto da Conferência Rio+20, tenho afirmado e reafirmado muito vezes: nós, seres humanos, somos parte da natureza. Esta é a nossa condição de vida, mas teimamos em nos ver diferentes. Pior, feitos para dominar e arrancar os segredos da natureza.

A revisão filosófica, ética e religiosa, econômica e política do lugar da natureza em toda a arquitetura social é considerada aqui como condição fundamental de uma civilização biocêntrica, a biocivilização. Sendo assim, a questão traz ao centro uma reflexão de justiça de tríplice dimensão: social, socioambiental e ecológica. Afinal, existe ou não uma questão de ética ecológica, de direitos e de justiça da natureza em si? Podemos nós sermos contra o direito imanente de sementes e animais se realizarem como seres vivos? Da rede de interdependências naturais da vida ser como é? Da atmosfera e do clima não serem alterados? E como isto tudo requalifica a fundamental luta humana por justiça social? Por mais difíceis que tais questões sejam, a busca de respostas a elas nos bota no caminho da biocivilização, mesmo que ainda muitas gerações tenham que se debruçar sobre elas.

A justiça social, que se funda no reconhecimento do princípio da igualdade da condição de seres humanos que compartimos o mesmo planeta, independentemente de nossos endereços localizados, atravessa as mais diferentes tradições filosóficas e religiosas. Dada a realidade de desigualdade social intra e inter povos ao longo da história humana, a luta por justiça e igualdade tem sido definida, com razão, como “motor da história”. Mas, temos que reconhecer, nunca a humanidade foi tão desigual como no contexto atual. Abundância excludente, riqueza do luxo e do lixo,  escandalosas fortunas para poucos e, como contraponto, a violência da miséria e da fome para muitos. A luta por justiça e igualdade não pode, hoje, ser contornada. Nunca a humanidade, em todos os quadrantes, teve tão ampla consciência do imperativo da equidade e da ameaça que significam a exclusão social, a pobreza e as diferentes formas de desigualdade e injustiça social.

Mas não é no crescimento da economia capitalista que reside a solução do problema, pelo contrário. As formas de crescente desigualdade são decorrência da dominação social intrínseca da civilização capitalista industrial, produtivista e consumista. A civilização do “ter” e do “acumular” necessariamente cria excluídos e dominados para que o “ter” e o “acumular” permaneçam nas mãos de poucos. Para isto, a máquina do capitalismo cresce privatizando e mercantilizando, usurpa e cerca os bens comuns, transforma a natureza em fonte de recursos naturais para a sua produção destrutiva, priva enormes contingentes da população de meios de se organizar e viver autônomos, não sobrando outra forma de viver que não a de se submeter à exploração.

É exatamente aí que a questão da destruição ambiental deste modo de organizar a economia e toda a vida aparece como o outro lado da questão da justiça social. Trata-se de uma civilização injusta e predadora. Não produz para satisfazer necessidades humanas de forma equitativa e nem respeita os limites que a integridade da natureza impõe para a sustentabilidade. Não é possível tornar sustentável tal modo de organizar a economia, como a Conferência da ONU Rio+20 para o desenvolvimento sustentável apregoa. Aliás, nunca é demais lembrar que o importante é tornar a vida, toda forma de vida, e o próprio planeta sustentáveis e não o desenvolvimento sustentável da destruição capitalista. Submetida como está ao capitalismo, hoje globalizado pelas grandes corporações econômico-financeiras, a humanidade já consome mais recursos naturais – a nossa pegada ecológica, na boa definição dos ecologistas – do que a Terra suporta.

Se todos vivessem na média norte-americana, seriam necessários cinco planetas! Ou seja, além da injustiça intra e inter povos, estamos já praticando uma injustiça entre gerações, pois não estamos deixando para futuras gerações a natureza com a capacidade de regulação e regeneração como a encontramos.

Considerando a desigualdade e a injustiça social, a destruição ambiental compromete a justiça social hoje e para futuras gerações. A destruição ambiental é, ela mesma, socialmente desigual, pois uns grupos e uns povos são mais afetados que outros, tanto atualmente como considerando as gerações por virem. Ou de outro modo, uns grupos e uns povos são ética e politicamente mais responsáveis que outros pela injustiça social e destruição ambiental.

A Conferência Oficial da ONU, com seu discurso de economia verde como nova frente de expansão de negócios e de crescimento, não só está longe de enfrentar o desafio do combate à destruição ambiental como condição de justiça social, como pode significar um abrir de porteira para mais injustiça e destruição, entregando à ganância capitalista toda a natureza, sem limites. Precisamos fortalecer a ainda tímida voz das ruas e encruzilhadas do mundo, a voz da cidadania que clama por respeito ao grande bem comum, a natureza, e por igualdade e bem viver. Juntemo-nos! Nunca é tarde demais!

 

fonte: www.ibase.br

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